Por Lívia Rangel
E de repente... em plena madrugada, ao sabor de um vinho barato, dou um trago num cigarro, lentamente, e sigo um vão pensamento que me vem à cabeça, sem mais nem porquê. Talvez as delicadas manias dos personagens de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", filme que assistia esparramada no sofá, na casa de uma amiga, tenham me elucidado saudosismos e uma sensação de leveza na alma.
Lembrei, não me pergunte porquê, das antigas cartas, dos namoros de portão e das meninas donzelas e puras que hoje já são mito. Não que as conquistas femininas não sejam importantes, ou que as mulheres recatadas dos séculos passados fossem felizes ou que sejam exemplo de conduta. Inspiro-me nessas meninas e mulheres de outras épocas, por sentir falta de pureza nas atuais relações humanas.
Restrinjo-me, no entanto, a lembrar de um objeto em especial, algo que para mim é o símbolo maior da materialização de um inconsciente belo, a entrega emocional de um alguém que ama, ou até mesmo um simples meio de comunicação à distância para diversos fins. Estou falando das quase extintas cartas, envelopadas, enviadas, e entregue a seus destinatários, normalmente, pela lendária figura do carteiro...
Lembrei da minha ex-sogra, senhora franzina, postura inclinada pra frente, magra, cabelos pretos cortados à altura do pescoço. Dona Vânia como era chamada pelos mais próximos, me despertara algo que nunca mais abandonei. O prazer em receber uma correspondência pelo correio. Talvez ela nem saiba, ou nunca venha a saber disto, mas percebia em seu olhar a fascinação diante de uma carta pessoal, destinada carinhosamente a ela.
Vânia é uma baiana, guerreira, que viveu duramente as cenas da ditadura militar no Brasil, durante as décadas de 60 a 80. Após mudar de identidade, fugir da sua cidade, viver na clandestinidade com seus três filhos... seu marido - também ativista e oposicionista ao golpe - fora preso, em uma reunião secreta, pelas forças militares do Brasil. Vânia e seus três filhos - Jorge, Rosa e Pedro - ainda crianças, mais uma vez tiveram que fugir na clandestinidade, deixando tudo que tinham de material para trás. As cartas que enviava aos parentes na Bahia e para o seu marido, então preso político, era a única forma de atestar a sua sobrevivência e expressar seus sentimentos à distância, ou mesmo, pedir ajuda para os entes distantes. Talvez, por isso, Dona Vânia, tenha tanto carinho pela figura do carteiro.
Bom, voltando ao meu objeto de elucubrações, as cartas, penso na juventude dos dias de hoje, em pleno séc XXI, era digital, era da informação. A “galera” está mergulhada num universo infinito de curiosidades sem-censura, o que não deixa de ser interessante, através da TV e da Internet, e situações tão comuns às pessoas em outrora, já não são mais requisitadas. A geração dos torpedos web, e-mails, orkut, chat, bate-papo, já não quer mais escrever em um papel.
Esta geração, fruto e maternidade da cultura digital, não vive o prazer de ser agraciado com um presente artesanalmente escrito, lido, relido, enfeitado ou não, perfumado ou não, mas pensado essencialmente para agradar um ser querido ou importante naquele momento. Claro que aqui me refiro às cartas de amor e mensagens de amigos, parentes e até mesmo de inimigos e desafetos...porque não?
Escrever ou receber uma carta é quase um ritual. A escrita é rebuscada para a letra não sair “feia”, a cor da tinta, as palavras escolhidas e pensadas com maior cuidado, a textura e fundo do papel e até o barulhinho das folhas sendo passadas, tudo tem um toque mágico desde a escrita até a sua leitura solitária. Os mais românticos enviam até seus cheiros para que o outro posso sentir a sua fragrância preferida. Uma carta é viva, tem magia, é tátil, tem força e aguça quase todos os nossos sentidos.
4 comentários:
LIU!
adorei, viu?!
ela ainda continua louca por carteiros!
acho que é por que eles trazem notícias que não serão apagadas imediatamente após serem lidas... é uma forma de fazer historia.
acho que é isso....
escreverei mais cartas!
bju enorme
OIE!
Pouxa fico feliz em saber que vocês gostaram e ate mesmo sentiram vontade de escrever mais cartinhas ... rs
Visite o correio mais proximo de sua rua...o carteiro deve estar entendiado depois da era dos emails... coitado, só entrega contas a pagar e cobranças ...rsrs
valeu pela visita!
Beijao pra vcs!
Sarinha te adoro viu lindinha?
Essa elucubração me ocorreu por conta de uma ex com quem trocava correspondências, mesmo nós dois morando em Salvador. Achava ótimo, apesar de nosso método ser duvidoso: entregávamos diretamente e líamos em frente um dao outro.
A carta remete a outra relação com o tempo, com o espaço e com a informação. É uma experiência muito interessante para marcarmos posição em um mundo cada vez mais marcado pelo "tempo real", imediatismo. (ela também é uma conquista tecnológica, mas muuuuuito mais ancestral).
Beijos de Xícara
Agradeço a todos pela visita!
Xicara adorei o comentario!
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